segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Amor que morre

Claude Monet

O nosso amor morreu... Quem o diria!

Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,

Ceguinha de te ver, sem ver a conta

Do tempo que passava, que fugia!


Bem estava a sentir que ele morria...

E outro clarão, ao longe, já desponta!

Um engano que morre... e logo aponta

A luz doutra miragem fugidia...


Eu bem sei, meu amor, que pra viver

São precisos amores, pra morrer,

E são precisos sonhos para partir.


E bem sei, meu amor, que era preciso

Fazer do amor que parte, o claro riso

De outro amor impossível que há-de vir!


Florbela Espanca

domingo, 12 de outubro de 2008

Improviso de Outono


donde vem?

de que sorriso

ou fonte

ou pedra aberta

e é para ti que canta

ou, simplesmente,para ninguém?

que juventude

te morde ainda os lábios?

que rumor de abelhas

te sobe pela garganta?

não perguntes; escuta:

é para ti que canta.


Eugénio de Andrade

Um pouco de céu

Fim de um amor



Escalada

Destino


Segue o teu destino,
rega as tuas plantas,
ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
de árvores alheias.
A realidade

Sempre é mais ou menos
do que nós queremos.
Só nós somos sempre
iguais a nós próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras
como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
está além dos deuses.


Mas serenamente
imita o Olimpo
no teu coração.
Os deuses são deuses
porque não se pensam.


Ricardo Reis

Desencontros



quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Poema da vida


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos
—Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar nas trevas
Um caminho entre dois túmulos
—Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai
—Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte
—De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

Confronto

Viagem


Se eu voltasse a nascer, e
as minhas mãos me ensinassem o caminho
que vai do coração ao mundo, e
os meus olhos me abrissem o círculo
que o mar desenha no horizonte,
e o meu nariz respirasse a luz que a manhã
solta de dentro da névoa, e os meus lábios
pedissem o pão de estrelas que as aves
trocam entre si, e os meus passos me conduzissem
para onde ninguém precisa de voltar,
o tecido da minha vida seria transparente
como o vidro da janela que não abro,
o fio que vou puxando seria eterno
como os números que contam os dias de um deus,
a tesoura da noite ficaria na caixa
que não precisei de abrir. Se eu voltasse
a nascer, e as velas do sonho me envolvessem
com o linho do seu vento.

Nuno Júdice

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Ser amigo é...


É ter-te sempre no pensamento
Naquele bom ou mau momento
É sentir-te vibrante
Alegre e pulsante
Quando teu coração pede alimento
Ser amigo
é estar sempre presente
Seja no real ou virtualmente
é secar tuas lágrimas de angustia
Mas também de alegria
É ser duro por vezes quando desalentas
Para dar-te forças...
Energia ...
Ajudar-te a vencer as tormentas
Ser amigo é afinal
Nunca te abandonar ou esquecer
Mesmo que o contrário te possa parecer
É adorar o Ser que És ... bem real
Mesmo enquanto só no virtual
Te conhecer

Recebido por email.Desconheço o autor

Liberdade

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Na aldeia

Quando fores embora
Deixa entreaberta a porta
Deixa a luz da lua espalhar-se nas paredes
Como se de ti ficasse algum sinal

Quase nada


O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Amor sem tréguas


É necessário amar,
qualquer coisa, ou alguém;
o que interessa é gostar
não importa de quem.

Não importa de quem,
nem importa de quê;
o que interessa é amar
mesmo o que não se vê.

Pode ser uma mulher,
uma pedra, uma flor,
uma coisa qualquer,
seja lá do que for.

Pode até nem ser nada
que em ser se concretize,
coisa apenas pensada,
que a sonhar se precise.

Amar por claridade,
sem dever a cumprir;
uma oportunidade
para olhar e sorrir.

António Gedeão

Permuta

Epigrama gastronómico


Há mil e cem anos
de poesia num só dia,
mil e cem palavras
numa só sílaba,
mil e cem páginas
numa linha

- quando abro o livro
do teu corpo, e provo mil
e cem receitas num só
amor.

Nuno Júdice

Dias iguais


e os mesmos dias
em que os passos se perdem
varridos pelo vento
e pela ligeireza
em que os gestos se multiplicam
e omitem palavras
em que a voz se esconde
para não mostrar o rosto
são tantas as noites
e os mesmos dias
em que o corpo resigna
e a alma debocha
em que a memória declina
e a esperança adormece
em que o amor surge
e a ignorância permanece
são tantas as noites
e os mesmos dias

José Gomes Ferreira

Morning on the beach

Quase um poema de amor



Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.
Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor

Miguel Torga

domingo, 28 de setembro de 2008

Amor Perfeito


Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados,
e o padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito?

Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda a vida.

Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito.
E onde estás, Amor-Perfeito?

Longe, longe, atrás do oceano
que nos meus olhos se aleita,
entre pálpebras de areia...

Longe, longe...Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor-Perfeito.

Cecília Meireles

Nunca esqueças

sábado, 27 de setembro de 2008

Mar de Setembro


Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
Fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves, só
alma e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto,
puríssimo, doirado.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Aprender a viver

Inconstância


Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando...

Florbela Espanca

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Assim foi...


Sê paciente, espera

que a palavra amadureça

e se desprenda como um fruto

ao passar o vento que a mereça


Eugénio de Andrade

C´est en Septembre



quarta-feira, 24 de setembro de 2008

As palavras

Se deste Outono


Se deste Outono uma folha,
apenas uma, se desprendesse
da sua cabeleira ruiva,
sonolenta,
e sobre ela a mão
com o azul do ar escrevesse
um nome, somente um nome,
seria o mais aéreo
de quantos tem a terra,
a terra quente e tão avara
de alegria.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Outono


Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga

Hoje começa o Outono




Nunca é demais lembrar que hoje começa o Outono,a mais bonita estação do ano.

sábado, 20 de setembro de 2008

We´re all alone




On the shore a dream will take us out to sea
Forever more forever more
Close your eyes and dream

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Carácter e reputação

Pintura de Michael e Inessa Garmash

“Preocupe-se mais com o seu carácter do que com a sua reputação,
Porque o seu carácter é o que você é, e reputação é o que os outros pensam de você.”


John Wooden

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Amor


"O verdadeiro amor nunca se desgasta. Quanto mais se dá, mais se tem. "
Antoine de Saint-Exupéry

Cada dia que vivo


"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.”

Carlos Drummond de Andrade

O verão anda por aí


O verão anda por aí, o cheiro
violento da beladona cega a terra.
Cega também, a boca procura
trabalhos de amor.Encontra apenas
o nó de sombra das palavras.

Eugénio de Andrade

Plano


Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

Nuno Júdice

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

L´important c´est la rose



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O que me dói


O que me dói não é
o que há no coração
Mas essas coisas lindas
que nunca existirão…

São as formas sem forma
que passam sem que a dor
as possa conhecer
ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
fosse árvore e, uma a uma,
caíssem suas folhas
entre o vestígio e a bruma.

Fernando Pessoa

sábado, 13 de setembro de 2008

Tomara!


Tomara que você volte depressa
que você não se despeça
nunca mais do meu carinho
E volte, se arrependa e pense muito
que é melhor se sofrer junto
que viver feliz sozinho
Tomara que a tristeza te convença
que a saudade não compensa
e que a ausência não dá pé
Que o verdadeiro amor de quem se ama
tece a mesma antiga trama
e não se desfaz
Que a coisa mais bonita
desse mundo
é viver cada segundo como nunca mais.

Vinicius de Moraes

Rotação


É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar.
Nuno Júdice

Universo


O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto é matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

António Gedeão

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Palavras gastas


Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inutil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Agradecer


Agradecer a Deus.
Agradecer à Vida.
Agradecer ao Sol por ter brilhado depois de tanta chuva.
Agradecer ao Vento por ter soprado só o necessário.
Agradecer a Coragem, a Determinação, a Força.
Agradecer aos Amigos.
Agradecer a Partilha.
Agradecer as Ofertas, as Mensagens, os Abraços.
Agradecer as Flores, o Céu Azul, o Mar imenso, as Cores de Ouro. Agradecer a Música, as Palavras, os Olhares enternecidos .
Agradecer
(recebido por email)

Felicidade


Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas
e tornar-se um autor da própria história.

É atravessar desertos fora de si,
mas ser capaz de encontrar um oásis
no recôndito da sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã
pelo milagre da vida.

(Autor desconhecido)

Visão

domingo, 7 de setembro de 2008

Dido



Eu sei...

Se eu voar sem saber onde vou
Se eu andar sem conhecer quem sou
Se eu falar e a voz soar com a manhã
Eu sei...

Se eu beber dessa luz que apaga a noite em mim
E se um dia eu disser que já não quero estar aqui
Só Deus sabe o que virá, só Deus sabe o que será
Não há outro que conhece tudo o que acontece em mim...
Se a tristeza é mais profunda que a dor
Se este dia já não tem sabor
E no pensar que tudo isto já pensei
Eu sei...

Se eu beber dessa luz que apaga a noite em mim
E se um dia eu disser que já não quero estar aqui
Na incerteza de saber o que fazer, o que querer
Mesmo sem nunca pensar
Que um dia o vá expressar
Não há outro que conhece tudo o que acontece em mim

Sara Tavares

sábado, 6 de setembro de 2008

Imaginação!!!

O nosso livro



Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito...
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!

Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
"Versos só nossos, só de nós os dois!..."

Florbela Espanca

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Verão

Imagem de George Saurat

Saboreio este dia,
Fruto roubado no pomar do tempo.
Sabe-me a novidade,
Deixa-me os lábios doces.
Tem a polpa de sol, e dentro dele
Calmas sementes de outro sol futuro.
Cheira a terra lavrada e a maresia.
E tão livre e maduro,
Que quando o apanhei já ele caía.

(Miguel Torga)

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O amor em linguagem de computador


Percorro com os dedos o teclado
e acaricio nele a tua pele
que imagino morena e macia.


Envolvo com o olhar o monitor aceso
e procuro aí os teus olhos
que suponho escuros e ardentes.


Passeio com o rato no tapete
e sinto os teus lábios no meu corpo,
vagarosamente deslizando
e deixando nele o sabor que imagino em ti.



Maria Carlos Loureiro

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Noite e solidão


Deixem passar quem vai na sua estrada
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar
Deixem passar e não lhe digam nada.

Deixem, que vai apenas
Beber água de sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora

Que vai cheio de noite e solidão
Que vai ser uma estrela no chão.

Miguel Torga