terça-feira, 14 de setembro de 2010

se a janela se abrisse...

Tela de Raffendre


Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Alberto Caeiro

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

domingo, 12 de setembro de 2010

Saudades de saudades...


A luz desmaia num fulgor d’aurora,
Diz-nos adeus religiosamente…
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui… outrora…
E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho…
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive…


Fernando Pessoa

sábado, 11 de setembro de 2010

a vida que é vivida....



Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

...a esta hora tudo em mim revive...



A luz desmaia num fulgor d’aurora,
Diz-nos adeus religiosamente…
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui… outrora…

E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho…
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive…

Florbela Espanca

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Também ele vai morrer...o Verão



Também ele vai morrer, o Verão.

.....Do verde ao vermelho
.....as maçãs ardem sobre a mesa.
.....Ardem de uma luz sua, mais madura.
.....E servem-me de espelho.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Esqueço o quanto me ensinaram




Deito-me ao comprido na erva.
E esqueço do quanto me ensinaram.
O que me ensinaram nunca me deu mais calor nem mais frio,
O que me disseram que havia nunca me alterou a forma de uma coisa.
O que me aprenderam a ver nunca tocou nos meus olhos.
O que me apontaram nunca estava ali: estava ali só o que ali estava.


Alberto Caeiro

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Exílio



No exílio de mim mesmo
passeio tranquilas saudades
em parques verdejantes. Viajo florestas
e mares. Estou na solidão da espera:
avisto navios ao longe.
Não tenho curiosidade em aportar
ao marujo e pedir noticias.
Não é minha hora de chegada.
Retorno na calmaria: ondas
maravilham a terra escorraçada,
meu corpo ilhado em pedras.

Chegar é mistério atravessado ao fio
do desencontro.

Pedro Du Bois

domingo, 5 de setembro de 2010

...num êxtase de seiva,

Abro a rosa com pétalas viradas para dentro
de mim, sugando-me o ser com os seus lábios
de veludo. E quando estou dentro da rosa, ouvindo
a música que corre ao longo do caule, num êxtase
de seiva, troco em versos o que a rosa me diz,
sentindo que a rosa se fecha, em botão, para
que o meu ser não saia de dentro dela. Então,
sei que habito o próprio centro do efémero,
enquanto as pétalas vão caindo, uma a uma,
à medida que a rosa se abre, e o sol que entra
para dentro da rosa, empurrando o meu ser
para fora do centro, corre nas suas veias,
como seiva de fogo, até fazer com que outros
botões nasçam, para que me suguem o ser, até
entre mim e a rosa não haver senão a frágil
fronteira de um espinho, em que me pico,
sentindo que a gota de sangue do meu dedo
podia ser a seiva em que a rosa nasce do ser
que a deseja, no instante efémero do amor.

Nuno Júdice


sábado, 4 de setembro de 2010

as coisas que te dou



(...)

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

...perfume do vento








O entardecer através do teu olhar,
Tem um encantamento singular.
Trazendo sempre contigo,
A eterna beleza do momento
E a suavidade do perfume do vento.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Esse rio sem fim

Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Os teus olhos entristecem

Teus olhos entristecem.
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem...
Não me ouves, e prossigo.
Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.

Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.

Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.

Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Mulheres que lêem são perigosas!

Winslow Homer

Andrey Viktorovich

Silvano Gamba

Alexander Deineka

Tamara de Lempicka

Henri Matisse

Frank Weston-Benson

Edward Barne Jones

Charles Edward Perugini

Alexander Bartashevich

José Ferraz de Almeida Jr

Alberto Pisa

Pierre Pivet

Josep Togores Renee

Harriet Backer
«Ler é um acto de isolamento amigável. Quando estamos a ler, procuramos tornar-nos inantingíveis. Talvez fosse isso que interessou os pintores durante muito tempo no retrato dos leitores: mostrar pessoas num estado da mais profunda intimidade não destinada a outros»

in «Mulheres que lêem são perigosas», de Stefan Bolmann


domingo, 27 de junho de 2010

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Esperança




Tela de Lawrence Alma-Talema


Se eu conseguisse viver este dia,
O dia que hoje passa,
Como se fosse o último da minha vida...
Esmagando ressentimentos,
Aleijando-me de toda a podridão
Que me aniquila a graça,
Que me enegrece a alma
E enluta o coração...


Ai, se eu pudesse suster
Os passos incertos,
No caminho errado,
Do meu viver !
E ao passado não voltar,
E saber esquecer,
Esquecer e perdoar ! ...

Se conseguisse reter
A lágrima que teima,
Dolorida,
Soltar-se dos olhos vidrados,
E que teima
Os rostos enrugados
Dos vencidos da vida ...

Se eu pudesse evadir-me
Deste negro cárcere,
Desta dura e fria prisão
Onde, há muito, vivo
Abandonado,
Cativo,
Nos braços da solidão...

Se eu conseguisse viver
Só dentro de ti,
E tu, bem dentro de mim,
Mas sem ninguém entender
O nosso viver assim ...

Isolado, neste mundo,
Onde a amargura se esconde,
Alimentando uma esperança
Que virá, não sei bem donde ...
- Do horizonte ? Do céu? Do mar?
... Na chama do amor vivendo,
O coração não se cansa,
Não se cansa de esperar! ...

José Maria Lopes de Araújo



segunda-feira, 21 de junho de 2010

Amizade

Que a cada amanhecer do teu dia nasça contigo uma flor.
Que cada sorriso teu, seja as pétalas que torna esta flor mais completa.
Que cada pensamento positivo, seja o caule .. que a sustenta.
Que cada passo para a vitória, seja a terra que alimenta.
Que cada gesto teu, seja o sol que fornece energia, e que o brilho dos teus olhos, seja a beleza e a simplicidade desta flor, que me embriaga com o seu perfume e me encanta com seu carisma.
Esta flor que desabrocha em teus pensamentos e me transforma em ti...
Uma flor que vai permanecer intacta às mais diferentes épocas, aos mais inesperados destinos, uma flor que nunca vou permitir morrer.
Sabes porque?
Porque ela é linda como tu
e porque todos a chamam de

AMIZADE

sábado, 5 de junho de 2010

cor...


...para colorir os dias que correm...

quinta-feira, 3 de junho de 2010